Social Innovation Camp Brasil!
terça-feira, 28 de julho de 2009
por Thiago Carrapatoso às 16:11 0 desdobramentos
Por outras veredas
domingo, 31 de maio de 2009
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...(Guimarães Rosa)
por Thiago Carrapatoso às 14:49 0 desdobramentos
Sólido
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Hoje é o dia em que este blog, infelizmente, será sólido.
A proposta do Ministério da Justiça de fato retira uma quantidade enorme de absurdos e imprecisões do Substitutivo do Senador Azeredo, mas mantém elementos inaceitáveis e introduz novidades obscuras, tais como a tentativa de criminalizar "provedores de conteúdo" que não tenham condições de vigiar seus usuários
2) Em que ele afeta a internet como ela é hoje?Ela abre espaço para intimidar os usuários das redes P2P, permite criminalizar jovens que copiam vídeos de TVs a cabo, músicas de dispositivos de comunicação (CDs, DVDs, i-pods, etc), ela torna a obtenção e transferência de informação em desconformidade com a autorização do titular da rede um ato criminoso. Em seguida, ela obriga os provedores que receberem denúncias de indicíos atos criminosos a entregarem seus usuários para as autoridades, leia-se polícia
Na prática isso significa o seguinte:Você sairá de casa pela manhã para trabalhar e o porteiro do seu prédio vai ter que anotar seus dados e registrar sua saída. Quando você entrar no bar para comer um “pão na chapa com pingado”, o seu Manoel da padaria vai ter que anotar seus dados também. Saindo da padaria, pegando um táxi (ou ônibus, trem, metro ou qualquer outro meio de transporte), o responsável por ele também vai anotar seus dados. Chegando no prédio onde trabalha, a portaria vai também registrar sua entrada, tal como a recepção da sua empresa.

por Thiago Carrapatoso às 11:29 0 desdobramentos
tags: ciberativismo
De repente
sábado, 11 de abril de 2009
"E se, de repente, você perecebesse que o verão apenas começou, que os morangos não estão mais verdes e que realmente as plantações são eternas?
E se, de repente, o mundo para o qual você olhava com segurança mudou, desapareceu, trocou?
E se, de repente, estivéssemos vivendo uma revolução, a verdadeira revolução, aquela revolução que todos nós sempre esperamos?
E se, de repente, esta revolução deixasse de ser apenas uma utopia para se tornar real?
E se, de repente, os questionamentos se tornassem mais constantes, como um grito de um trompete em uma música de jazz?
por Thiago Carrapatoso às 21:06 0 desdobramentos
O mundo sem fronteiras
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Andando do trabalho para casa, contemplou os carros que trafegavam pelas ruas, reparou nos sons que as ondas do mar faziam mesmo a metros de distância e sentiu o ar poluído por diversas indústrias da cidade vizinha entrar em seus pulmões e sair seco. Seco. A maresia causada pelo mar da cidade litorânea não parecia o suficiente para umidecer o ar de toda a cidade. Talvez o concreto dos prédios e do asfalto seja o responsável. Ou talvez a poluição seja tanta que é impenetrável à umidade provinda do mar. Tanto faz.
Já estabelecido em sua residência e limpo de um dia exaustivo, não fez jantar ou sentou em frente à televisão para ver a partida de seu time de futebol. Apenas caminhou até a janela da varanda, abriu-a e encarou, de pé, a vida que passava noturna. Instantaneamente, toda aquela agitação, todas aquelas pessoas conversando, indo, voltando, indo, cantando, indo, chorando e voltando não lhe disseram nada. Houve, em um determinado instante daquele mesmo dia, que o elo entre ele e a cidade se desfez. Ele não estava mais lá, ela não estava nele. Não soube o que houve, mas definitivamente, ele não ficaria mais ali.
Foi ao computador, reservou sua passagem para o dia seguinte, fez uma pequena mala e dormiu. No dia seguinte, cruzou um continente para chegar a um país latino, onde uma dança com uma rosa na boca era o cartão postal. Fechou um hotel por uma semana, enquanto procuraria um apartamento fixo para morar. Mandou um e-mail para a dona do apartamento de origem avisando que não voltaria mais e que amanhã suas coisas já seriam empacotadas e enviadas para onde estava por um serviço terceirizado. Segundo seu contrato de inquilino, os três meses de antecedência de aviso prévio foram pagos na entrada, então, não tinha complicações para ir embora.
Para sanar a fome que o corroía por dentro, foi a uma padaria e comprou uns pães com mortadela. Para beber, um suco de laranja. Tudo pago com o seu cartão de crédito, que é a moeda do mundo em que vive. Não tinha notas pois elas não existiam mais, assim como a noção de dinheiro. Não precisou, então, se importar com alguma conversão de moeda, pois elas não existiam tão pouco. Se todos usavam um simples plástico para adquirir um produto ou serviço, por que continuar imprimindo papéis e pequenos discos de metal? A economia, afinal, é virtual, irreal, apenas uma teoria.
Logo depois do café da manhã reforçado, saiu à procura de um café onde pudesse trabalhar. Ficar no hotel, em um quarto fechado, sem pessoas passando e falando, lhe soou um tanto quanto depressivo. Preferiu encarar os estranhos enquanto ficava à frente de seu laptop digitando o que precisava ser feito. Para que carregar diversos papéis se o trabalho estava em uma tela de cristal líquido? Esse também é o motivo para não ter nem avisado seus colegas que mudara de país. Não precisava. Todos ainda estavam em sua lista de contatos de mensagens instantâneas e clientes de e-mail.
Lotados. Nenhum lugar vago, nenhuma cadeira vazia. Como o sol ainda estava em pleno circuito oval e estava longe se completar a sua metade - e como tinha feito um baita frio na noite anterior e estava apreciando esta nova temperatura -, decidiu ir trabalhar, então, na praça principal da cidade. Em um banco, em frente ao lago central, com vista para as montanhas e ao lado de árvores e espécimes de plantas referentes ao clima, trabalhou. Quando a bateria de seu computador gritou estar ficando sem reserva, abriu o pequeno tampo que havia no lado direito do assento e plugou o seu carregador na tomada, que era ligada à fiação central da cidade. Ao fazer isso é que se deu conta como a conexão à internet da nova cidade era bem mais rápida do que a de origem. Geralmente, as conexões em praças públicas, tão comuns em seu mundo contemporâneo, eram um pouco lentas por causa da quantidade de pessoas que as usavam nos grupos de discussão que por ali ocorriam.
O sol foi fazendo o seu caminho, foi chegando perto da metade do caminho, quando uma linda moça sentou-se ao seu lado e puxou conversa sobre amenidades. É, sempre quando o sol desce fica um pouco mais frio. Quer um casaco? Ah, não, não tem problema. Você vem sempre aqui? Nossa, que interessante deve ser trabalhar com maquinário para a produção de tampas de vaso sanitário autodesinfetantes. A língua, por fim, era a mesma. Não havia divisões, não havia mudanças. A gramática era compartilhada, os vocábulos um tanto quanto diferentes, mas mesmo assim compreensíveis. Só se usava a língua materna - que todos deveriam saber por obrigação de nação - quando se estava mais íntimo de uma pessoa ou de determinado grupo - isso, claro, se eles compartilhassem a mesma mãe. Saber logo de início os irmãos de uma grande mãe, no mundo em que vivia, era praticamente impossível. E a etiqueta era rígida: primeiro a língua mundial, depois a local.
Foi aí que percebeu que o sol não deveria mais fazer um movimento elíptico. E a Terra, então, se fez plana, como no ínicio, quando o mundo era restrito a apenas um continente.
por Thiago Carrapatoso às 19:30 0 desdobramentos
tags: ficção
Alegorias
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Os passageiros do navio 'Capitalismo Pesado' confiavam (nem sempre sabiamente) em que os seletos membros da tripulação com direito a chegar à ponte de comando conduziriam o navio a seu destino. Os passageiros podiam devotar toda sua atenção a aprender e seguir as regras a eles destinadas e exibidas ostensivamente em todas as passagens. Se reclamavam (ou às vezes se amotinavam), era contra o capitão, que não levava o navio a porto com a suficiente rapidez, ou por negligenciar excepcionalmente o conforto dos passageiros. Já os passageiros do avião 'Capitalismo Leve' descobrem horrorizados que a cabine do piloto está vazia e que não há meio de extrair da 'caixa preta' chamada piloto automático qualquer informação sobre para onde vai o avião, onde aterrizará, quem escolherá o aeroporto e sobre se existem regras que permitam que os passageiros contribuam para a segurança da chegada.(Bauman)
No metrô de Londres, um garoto de vinte-e-poucos-anos, recém chegado à estação, perguntou a um duro homem que estava apoiado na parede se os trens estavam passando, já que do lado de fora uma nevasca não vista em 18 anos assolava a cidade. O homem, rústico, disse que sim, em um sotaque que lembrava as brincadeiras de criança quando se tratava de soviéticos (até uma empresa de tv a cabo fez uma brincadeira do tipo).
O garoto, intrigado, questionou de onde o homem era, que replicou a mesma pergunta. Italiano; você é casado? Não. Quantos anos o senhor tem? 64. É difícil arrumar namorada com esta idade.
*
Quando eu estava em Paris, esperando o voo para chegar a Londres, conheci um brasileiro que me abordou na fila de serviços ao consumidor da companhia aérea. Ele era de uma cidade ao norte de Minas, bem próximo à Bahia. Já estava há dois dias sem dormir porque a viagem fora longa e não conseguira pregar os olhos pensando “no coração” que tinha deixado em cidades tropicais.
Ele mora em Londres há sete anos. Tem um pequeno filho, de três ou quatro (não se lembra), e trabalha no ramo de decoração (abrangente assim, da mesma forma que um pipoqueiro trabalha no ramo alimentício).
Com o caos se formando no aeroporto, uma vez que a nevasca assolava Londres e ninguém conseguia chegar àquele destino, reclamei que estava com fome e que precisava de um vale da companhia para me alimentar, pois não tinha dinheiro local. Ele insistiu, então, para bebermos uma cerveja e depois resolvermos o caso. Simples.
Ele estava sofrido com a despedida do Brasil. Lá, deixou duas namoradas: uma de sua cidade, outra de São Paulo. A última, por acaso, ele conhecera em sua própria casa, enquanto ela trabalhava como baby sitter de seu filho. Um olhar aqui, uma tirada acolá, e o caso estava feito. Sua mulher, uma advogada descendente de indianos, falava para os amigos que estava tranquila quando deixava os dois sozinhos, pois ele não faria nada. A confiança era tanta que até uma viagem para Marrocos ela pagou para os dois (e o filho), um antigo sonho da conterrânea brasileira. Estranhamente, quando ela tentou voltar para a Inglaterra, foi barrada na imigração e teve que voltar para o Brasil. “É azar”, dizia.
O grande dilema dele, na verdade, não é ter deixado as duas, mas com qual ficar. Ele é um cara bem decente e nunca mentiu para nenhuma delas - a não ser para sua esposa. Ambas sabem uma da outra. Tanto sabem que ele já até propôs para que os três morassem juntos. Ainda não deu certo.
Por que não se separar da mulher, então? Porque a cidadania ainda não saiu. A sua mulher, aparentemente, sofre de depressão profunda. Chora por qualquer coisa, fica semanas sem conseguir sair da cama, não tem mais uma “vida de casal” com o marido, não faz nem comida para se alimentar. Mesmo assim, toma diversos remédios, tanto para emagrecer, quanto para cuidar de um sentimento que não passa. E ele? Já tentou conversar, mas não deu certo. A solução, então, foi trazer direto do Brasil remédios milagrosos que fazem perder peso em poucas semanas. Na primeira dose, ela perdeu vários. O remédio acabou. Ele foi buscar mais. Não encontrou, mas trouxe um outro, que ele não conhecia, mas que provocava “quase ou o mesmo efeito” que o outro. Um dos efeitos colaterais é a depressão. Ela diz não tomar mais. Ele vê o frasco perder o seu conteúdo da mesma forma que o desejo pela sua mulher se dissipou.
*

por Thiago Carrapatoso às 19:43 0 desdobramentos
tags: sociedade
A sociedade líquida
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
O que todas essas características dos fluidos mostram, em linguagem simples, é que os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas 'por um momento'. Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa. Ao descrever os sólidos, podemos ignorar inteiramente o tempo; ao descrever os fluidos, deixar o tempo de fora seria um grave erro. Descrições de líquidos são fotos instantâneas, que precisam ser datadas.(Zygmunt Bauman)
Muito acontece na vida pós-moderna. Somos sobrecarregados por todos os lados: profissional, emocional, pessoal e mental. Ir de lá para cá com a maior facilidade. Os extremos, aos olhos do fluido, se tornam o mesmo, com uma mudança apenas de lugar.
Muda-se.
Ando, recentemente, pesquisando sobre o que é esta sociedade tão angustiada e serena. Ao mesmo tempo em que se vê pessoas trabalharem 24/7, vê-se a calma, o sereno, a tranquilidade. Tudo parece possível. Tudo parece viável. As mudanças de uma vida são apenas transições que perderam todo o impacto ideológico que outros suportavam. Mudam-se de emprego. Trocam os relacionamentos. Andam por países cada vez mais distantes. Sem nunca achar o tão famigerado ponto de refúgio, de descanço, de conforto. Parece que uma força inconstante tem ditado a ação de uma sociedade inteira. Não se pode parar, não se pode relaxar, não se pode esperar. Tudo deve ser transitório, como algo que se perde sem a menor importância.
Fica, para mim, evidente a falta de compromisso ou de peso. A transição acontece. Boa! Vamos para outro. E assim se vai mudando, sem peso, sem consciência, sem carga. Coloco a citação de Bauman e uso a sua teoria para identificar este blog pois, como não podia deixar de ser, estou inserido nesta sociedade que se liquefez.
Sou, por fim, um fluido.
Aqui, neste espaço, escreverei sobre minhas pesquisas, sobre o que entendo deste grande emaranhado de pessoas que estão inteiramente conectadas umas as outras sem estarem conectadas. São seres que estão a alguns cliques de distância, mas que estão muito longe de terem uma significação para uma existência.
Escreverei sobre o que eu vejo, entendo e gosto. Serão exemplos, nortes, bases, conclusões, indicações e perguntas. O que cair em minha existência molhada, será relatado.
Então, a vocês, desejo que se matenham calmos. Quando perceberem, estaremos todos molhados, líquidos.
Não se sequem.
por Thiago Carrapatoso às 12:14 0 desdobramentos